Stuttgart (Alemanha) |Financial Times A Porsche elevará em cerca de 20% o preço médio de seus modelos mais caros até 2030, enquanto a montadora alemã de carros esportivos busca seguir a estratégia da Ferrari de usar a exclusividade para aumentar os lucros.
O presidente-executivo Michael Leiters apresentou nesta quarta-feira (7) um plano de vários anos para recuperar os resultados da Porsche por meio da venda de menos carros, mas de modelos mais sofisticados, após uma dispendiosa reversão de sua estratégia para veículos elétricos no ano passado.
"Queremos elevar ainda mais nosso posicionamento, proteger a exclusividade da Porsche e aumentar nosso poder de precificação", disse Leiters, ex-chefe da McLaren que assumiu o cargo em janeiro. "Essa marca tem muita força."
O preço médio dos modelos de ponta da Porsche subirá de cerca de 270 mil euros (R$ 1,58 milhão) neste ano para mais de 330 mil euros (R$ 1,85 milhão) até o fim da década. A participação desses modelos no portfólio da montadora também deverá aumentar de um terço atualmente para 45%.
A mudança da Porsche em direção a carros esportivos com margens maiores e edições limitadas de modelos exclusivos ecoa uma estratégia característica da Ferrari, que ajudou a montadora italiana a alcançar uma margem de lucro operacional de 30%, acima da média do setor.
Historicamente, a Porsche contribuiu com uma parcela desproporcional dos lucros do Grupo Volkswagen, impulsionada pelo forte crescimento na China. Mas a situação se reverteu de forma drástica, com a queda das vendas no maior mercado automobilístico do mundo e o impacto de tarifas americanas mais altas. A empresa também teve de realizar grandes baixas contábeis para voltar a investir em modelos a combustão que havia abandonado durante uma grande mudança em direção aos carros elétricos.
A estratégia de Leiters resultará em uma Porsche muito menor, com a empresa reduzindo para menos de 200 mil unidades o número de veículos que precisa vender para obter lucro. O grupo entregou cerca de 320 mil carros em 2023, quando registrou margem de lucro operacional de 18%. No ano passado, porém, a margem despencou para 1,1%, com entregas de aproximadamente 280 mil veículos.
O grupo manteve nesta quarta-feira (7) a meta de alcançar margem de lucro operacional de 10% a 15% e margem de fluxo de caixa líquido automotivo de até 12% até 2030. A empresa terá como objetivo atingir margem de lucro de 15% até 2035.
A Porsche aposta em uma nova versão do Macan com motor a combustão, prevista para 2028, para recuperar os lucros e compensar a queda das vendas na China. A empresa também planeja apresentar um novo SUV, que terá versões a gasolina e híbrida plug-in, além de desenvolver um novo superesportivo com preço superior ao de seu modelo mais conhecido, o 911.
"Estamos sendo mais seletivos sobre onde podemos competir e mais ambiciosos nos segmentos em que vemos maior compatibilidade com nossa marca", disse Leiters.
Leiters, que anteriormente foi diretor de tecnologia da Ferrari, afirmou que o plano de transferir as vendas para produtos mais caros e com margens maiores será acompanhado por cortes de 20% nos custos de desenvolvimento de produtos e no número de versões de modelos produzidas pela empresa.
A companhia já chegou a um acordo com os sindicatos para cortar 9.000 empregos —cerca de 20% de sua força de trabalho— até 2035.
O analista do UBS Patrick Hummel afirmou que a Porsche deverá "voltar confortavelmente" a margens de lucro de dois dígitos até o fim da década se Leiters conseguir executar sua estratégia.
"É uma reprodução do que a Ferrari conseguiu fazer com sucesso. A Porsche também tem potencial para vender mais no segmento de ponta e oferecer mais exclusividade com os modelos certos", acrescentou.
Leiters disse ao Financial Times na semana passada que "não haverá um 911 elétrico", embora a empresa avance com a versão elétrica de seu carro esportivo 718 no próximo ano.
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Nesta quarta-feira (7), a Porsche afirmou que pretende alcançar uma proporção de dois para um entre modelos a gasolina e híbridos plug-in em relação aos elétricos.
Scott Sherwood, analista independente de marcas de luxo, disse que a Ferrari conseguiu construir sua estratégia em torno da "escassez" porque vende apenas cerca de 14 mil modelos por ano. Mesmo com o redimensionamento, a escala da Porsche será muito maior, afirmou.
"Eles têm um grande desafio de marca. A Porsche é uma marca de carros esportivos, e carros esportivos com preços de supercarros só funcionam com um pequeno grupo de marcas que têm os clientes mais fiéis", disse Sherwood. "É um pouco como se a Rolex decidisse que quer disputar os compradores da Patek Philippe."
